No dia 20 de fevereiro de 1933 um jovem escritor de 29 anos Kobayashi Takiji foi torturado e executado pelo Estado japons. Takiji sofreu uma emboscada de um agente secreto infiltrado capturado foi conduzido a uma delegacia de Tsukiji um distrito de Tquio. L foi espancado e torturado por se negar a revelar o que sabia das atividades do Partido Comunista. Seis horas depois de sua soltura faleceu em um hospital nas proximidades. Para a pesquisadora Norma Field as autoridades japonesas no queriam informaes mas sim usar o caso do escritor proletrio como exemplo.
Kobayashi Takiji foi uma das vozes mais proeminente na denncia dos problemas sociais do Japo mas tambm no chamamento classe operria para a emancipao humana com isso fez parte do que entendido como literatura proletria uma escola artstica e intelectual do perodo Taish 1912 a 1926. Este movimento literrio era caracterizado pelo alto teor sciopoltico por evidenciar as contradies vvidas pelo Japo num perodo de alta industrializao e modernizao. A urbanizao japonesa alm de trazer uma expanso no campo industrial e financeiro provocou um grande aumento na desigualdade social. Nesse sentido era um movimento engajado em retratar a misria das situaes de explorao e opresso vvida por trabalhadores na linha de produo de um lado e de outro marcada por um projeto transformador ao buscar um despertar poltico das massas.
Alm do assassinato de Takiji ser lido como a morte e desaparecimento da prpria literatura proletria igualmente ilustra a solidificao do projeto fascista e expansionista de colonizao do Japo Imperial. Os escritos de Takiji e de outros do movimento evidenciavam a explorao dos operrios as pssimas condies de trabalho e a degradao da condio humana nos postos de trabalho do Japo porm simultaneamente denunciavam a propagao do capitalismo japons para suas colnias o tratamento injusto conferido aos trabalhadores chineses e coreanos a questo da independncia da Coreia o diferente impacto que o colonialismo exercia sobre a classe proletria se comparado com a burguesa a posio desfavorvel dos agricultores recrutados para o exrcito e os efeitos do imperialismo japons na sia. Com isso a escola proletria punha em cheque o nacionalismo imperial e contestava as estruturas do capital que mantinham trabalhadores nacionais e estrangeiros sob o jugo da explorao.
Por isso dispositivos jurdicos como a Lei de Preservao da Ordem Pblica chian keisatsu h que proibia a organizao de greves e reunies sindicais e a Lei da Polcia e Ordem Pblica kokutai wo henkaku que criminalizava qualquer tentativa de alterao do sistema poltico ou abolio da propriedade privada alm da censura e priso preventiva foram largamente utilizados pelo governo como forma de neutralizar mobilizaes populares e a organizao dos trabalhadores. A represso poltica e policial ento foi uma das principais razes pelas quais a literatura proletria como tambm a formao de uma frente popular organizada extinguiuse. Da a morte de Kobayashi Takiji um incidente crucial para compreender o desenvolvimento da literatura proletria e o recrudescimento do fascismo japons.
Neste artigo irei me debruar sobre a adaptao em quadrinhos do romance proletrio mais importante do movimento Kaniksen: O navio caranguejeiro de Kobayashi Takiji. O mang com o subttulo Navio dos Homens ilustrado e roteirizado por G Fujio condensa as principais aes e temas do livro. Nisso tentarei elaborar como primeiro esse intuito de sntese dilu a tenso e a carga dramtica da histria segundo observar como o mang opera mais como uma divulgao do trabalho do autor original e menos como uma obra por si.
Kaniksen: O Navio dos Homens retrata a condio degradante e brutal de trabalhadores no naviofbrica Hakuko Maru em guas soviticas em altomar os pescadores coletam processam e embalam caranguejeiros. Esta embarcao a nica alternativa para desempregados pequenos comerciantes falidos camponeses semterra jovens pobres e outros rejeitados da sociedade. Em uma espcie de limbo jurdico o Hakuko Maru no estava no escopo das leis de navegao pois no era considerado um barco e sim uma fbrica e tambm no era legvel a uma jurisdio de fbrica porque era uma embarcao tambm. Com isso este espao constituise um circuito livre para todo e qualquer tipo de barbaridade e arbitrariedade por parte de empresas. Por isso merc das condies precrias e insalubres diversos operrios morreriam de maustratos ou desnutrio. Para sobreviver os trabalhadores ento percebem que tero que lutar e resistir.
Em linhas gerais o mang narra a histria de um levante revolucionrio de trabalhadores em condies insalubres dessa maneira h a construo de uma conscincia poltica atravs da explorao e agresso sofrida por eles no Hakuko Maru. Com isso parte da narrativa delineada a partir de detalhes intensivos de violncias cometidas pelo superintendente Asakawa chefe imediato dos trabalhadores e personificao dos interesses empresariais como por exemplo apanham caso no sejam produtivos so marcados a ferro e fogo so enforcados quando fiquem doente e entre outros. Alm do abuso fsico o superintendente instila uma hipercompetitividade entre os trabalhadores quem trabalha mais no ganha nada porm quem produz menos punido e principalmente insufla entre os operrios um sentimentos de nacionalismo: eles esto fazendo aquilo pelo bem do pas.
A partir disso possvel apreender Kaniksen como uma representao da dinmica capitalista/colonialista e o funcionamento disto em uma cadeia maior de produo uma estrutura que compreende no apenas empresas como tambm o Estado tudo isso claro tendo em vista a maneira como o Japo quele perodo reproduzia a explorao predatria nas suas colnias China e Coreia.
At aqui o trabalho exercido por G Fujio interessante h um primor esttico em expor o tratamento dado aos trabalhadores concisamente direto sucinto funciona. Por outro lado no entanto as aes soam comprimidas haja vista que os acontecimentos no so desenvolvidos o suficiente para parecerem parte de uma cadeia lgica e gradual. ttulo de exemplo Asakawa utilizase da retrica nacionalista a fim de alienar e manipular os trabalhadores isso funciona com uns com outros no. Toda essa estratgia no passa de duas ou trs pginas: no sabemos o desenrolar deste estratagema: esses pescadores ficaram do lado do Asakawa no momento do levante? No? Mudaram de ideia? No se sabe.
Outro procedimento de Fujio funciona como uma faca de dois gumes: a falta de protagonista. De acordo com as minhas pesquisas o real protagonismo do livro tambm a massa trabalhadora o que igualmente levantou uma srie de questes e crticas poca do lanamento do romance.
No caso do gibi especificamente uma escolha pertinente quando comparada a uma espcie de hipertrofia do indivduo no qual h um foco quase exclusivo a apenas um sujeito em centenas de histrias e narrativas em detrimento da possibilidade de potncia de um grupo. Dessa forma casado a prpria temtica existe a construo de um coletivo de trabalhadores que sofrem em unssono como tambm se rebelam em conjunto inclusive uma das razes da falha da primeira revolta porque a ao no foi encabeada por todos. Ao longo da narrativa ento frisado como diante do setor empresarial e do Estado apenas a mobilizao coletiva tem fora suficiente para resistir e lutar.
Sob outro prisma contudo esta falta de protagonismo esmaece a carga dramtica uma vez que no ocorre uma investigao da subjetividade dos sujeitos motores dessa histria. Esta falta de drama pode ser observada na escolha da aparncia dos personagens: os heris/vtimas tm olhos e traos arredondados enquanto os viles linhas mais angulares. A distino moral dada atravs da aparncia no um tcnica recente tampouco problemtica por si s. Alm de fcil identificao serve matria do enredo no entanto mesmo em situaes de sofrimento ou raiva os trabalhadores permanecem com as mesmas feies puras e inocentes arredondadas. Nesse sentido com o drama humano esvanecido as ocasies de explorao ficam apenas na descrio por no aprofundar os efeitos psicolgicos e emocionais da opresso vvida por cada um deles. Alm disso a questo de apenas o superintendente ser nomeado incorre numa problemtica acerca do protagonista sem forma isso por si s no seria uma questo relevante porm auxilia a compor um panorama geral do modo como o mangak desenvolve o protagonismo do coletivo.
Portanto pessoalmente mais interessante e divertido pesquisar sobre Kaniksen: O Navio dos Homens do que llo serve mais melhor como uma divulgao do trabalho original o que funcionou pois terminei com bastante vontade de ler o livro. Outra questo bacana que pode ser trazida por causa do mang sobre esttica. A meu ver toda a linguagem utilizada pelo G Fujio simples e objetiva no h uma composio intricada com ngulos diferentes pginas duplas engajantes.
Referncias bibliogrficas:
Almeida Andr Felipe de Sousa. O naviofbrica caranguejeiro de Kobayashi Takiji: traduo e consideraes. Diss. Universidade de So Paulo 2016.
Blois Luiz Fernando dos Santos Velloso. Literatura Proletria no Japo Taish: Entre o Engajamento e a Censura 19121926.
PINTO Felipe Chaves Gonalves. Sobre caranguejos pobres e subjetividades ou como a subjetividade representada no pobre em Homens e Caranguejos 1967 de Josu de Castro e Kaniksen 1929 de Kobayashi Takiji. In: FERREIRA Ccio Jos VELASCO Catherine de Souza Medeiros Alves IWAKAMI Laura Tey NASCIMENTO Mateus Martins do. Orgs.. Contemporaneidade e circularidades hibridas nos estudos japoneses Rio de Janeiro: Projeto Orientalismo/UERJ Associao Brasileira de Estudos Japoneses ABEJ 2025. P. 254278. ISBN 9786501549477. Disponvel em: https://orientalismo.blogspot.com/p/publicacoes.html.
SORTE JUNIOR Waldemiro F. O movimento literrio do proletariado no Japo: uma anlise de dois contos de Yoshiki Hayama. Literatura: teoria historia crtica v. 23 n. 1 p. 63101 2021.
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